Wednesday, November 30, 2005

carl sandburg: lost

Desolate and lone
All night long on the lake
Where fog trails and mist creeps,
The whistle of a boat
Calls and cries unendingly,
Like some lost child
In tears and trouble
Hunting the harbor's breast
And the harbor's eyes.

Tuesday, November 29, 2005

carl sandburg: they will say

Of my city the worst that men will ever say is this:You took little children away from the sun and the dew,
And the glimmers that played in the grass under the great sky,
And the reckless rain; you put them between walls
To work, broken and smothered, for bread and wages,
To eat dust in their throats and die empty-hearted
For a little handful of pay on a few Saturday nights.

carl sandburg: a fence

Now the stone house on the lake front is finished and the workmen are beginning the fence.
The palings are made of iron bars with steel points that can stab the life out of any man who falls on them.
As a fence, it is a masterpiece, and will shut off the rabble and all vagabonds and hungry men and all wandering children looking for a place to play.
Passing through the bars and over the steel points will go nothing except Death and the Rain and To-morrow.

Monday, November 28, 2005

chabelo y alón son negros

Tuesday, November 22, 2005

diploma

Thursday, November 03, 2005

Algumas linhas a respeito de Alberto Caeiro

O prenome Alberto, de origem germânica, significa "nobre" e "claro". Ora, contanto que alienígena, o nome, já há muito aportuguesado, caiu bem no português; e mais, ficou assaz eufônico e sem lhe demonstrar a fonte.

Quanto ao apelido ou, como alguns querem, o sobrenome, Caeiro, a mais superficial das investigações etimológicas dá-nos o berço, nitidamente, lusitano.

O professor curitibano Mansur Guérios diz-nos que significa aquele que lida com cal. Pois bem, vemos nisso o quão arguto e sutil foi Fernando Pessoa neste batismo porque, a considerar a cal, matéria constante no ambiente pessoano, em que havia muitas casas brancas, isto vem de encontro com o estro que lhe transfundiu o poeta. Sim, pois Caeiro era o vate da natureza nua, da contemplação não anímica. Podemos até aduzir que o oposto do seu criador.

Num caminhar mais ao largo, em conjecturas que teriam sido urdidas quando da paternidade, ideamos que, a cal, em quintessência, produto oriundo de transformações de grandes temperaturas (o elemento fogo), depurada de todas as impurezas e amiúde presente na argamassa, seria emblemática para o heterônimo. Logo, usa-se-a para construir, usa-se-a, por outra, para purificação da água, na forma anidra, a cal virgem. Disso, ainda, mais além, conhecemos a simbologia da pá-de-cal. Seja, deitada por sobre a urna funerária, nas cerimônias lutuosas, quiçá como símbolo da ablução daquele que ora larga, em cinzas, o invólucro corpóreo e parte para outra dimensão.

Ousaríamos, sem medo de errar, fundar uma interpretação semântica da locução onomástica "Alberto Caeiro", qual sendo: o nobre e claro deste chão-mundo da cal.

Ora, Fernando Pessoa, enquanto poeta do sentir, na mais vasta significação, demandara um tutor no caminhar mundano e isto só lhe fora possível com o filho Caeiro. Sim, Caeiro fê-lo abandonar o pavor da enormidade do mundo, mostrara-lhe o valor da intuição, propiciara-lhe o recobro da substantividade. Haveria de purgar toda a densa mácula metafísico-humanista derramada por sobre a concretude das coisas, durante longo devir histórico-cultural. A poesia renasceria crua, pura, dura e material. A natureza fora o tapume de permeio entre a coisa e o senti-la, não mais agora.

Em brilhante comentário acerca de Caeiro, Gilberto de Mello Kujawski assevera: "Caeiro é o mestre de Pessoa e de todos os heterônimos porque rompe com o autismo do poeta, arrojando-o face a face com a realidade. Caeiro reconquistou o contato direto com as coisas, com a patência das coisas físicas e sensíveis, o que serviu de base para que Fernando Pessoa e os heterônimos, devolvidos à realidade, conquistassem novas perspectivas desta, possibilitando assim a renovação radical da poesia, em várias direções."

Caeiro é, a um só tempo, a consciência grega, tão cara a Pessoa, e a negação de todo o esmalte humanista, da especulação filosófica animista.

Mais uma vez, permitimo-nos remissão ao onomástico "Caeiro", bastante chão, despido de perfunctórios que lhe insinuem grandeza, fidalguia ou, bem assim, humanidade lato sensu; não traz nomes altaneiros, como "Reis" ­ realeza, ou "de Campos", nobreza. Curiosamente, com crédito na descrição que faz Pessoa, em carta a Casais Monteiro, de 13.1.1935, Caeiro é louro e de olhos azuis, algo completamente diverso da natureza étnica portuguesa; distinto, ainda, dos outros heterônimos em cor e compleição. Fisicamente, ademais, Caeiro é de estatura maior que a de Pessoa, diz, deve ter 1,75 m. Foi-lhe o primeiro heterônimo da fase adulta, profissional; guardemos bem a questão do número um, o primeiro. Adiante, tentaremos alguma abordagem esotérica, tão adstrita à configuração intelectual de Pessoa.

A par de não ter estudos como os outros heterônimos pessoanos, Caeiro viveu numa quinta do interior, na fértil região do Ribatejo, embora tendo nascido em Lisboa. Os olhos azuis são-lhe, pois, a vidraça translúcida para o mundo, com que ver as coisas e a estas fundir-se em perfeita comunhão, já de há muito não detectada na composição estética; contrário, Pessoa, o ortônimo, e seus outros heterônimos têm olhos escuros, qual véu a velar a natureza das coisas, linde intransponível a não ser por via anímica.

Caeiro é o poeta do agora: não há ontem e nem amanhã, a vida é mero "sendo"; vale-se bem dos gerúndios, no desenrolar dos poemas. Mais, é o poeta do olhar: "Eu nem sequer sou poeta: vejo."

Magistralmente, anota o professor berlinense Georg Rudolf Lind, num profundo estudo pessoano, mediante excerto haurido da carta do poeta (já precitada): "Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com o título O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro" (grifo nosso). Ora, quando o poeta faz o poema, está a criar, a urdir algo de si; noutros termos, faz o conhecimento originário, instaura nova realidade no mundo, não olvidemos que "conhecimento", do francês connaissance, por sua vez, de connaître, quer, exatamente, dizer: nascer com, ou nascer ao mesmo tempo. Daí, Pessoa deu à luz aquilo que lhe seria o heterônimo-patência. Pois bem, se tal arrazoar for merecedor de confiança (e é em que acreditamos), houve por bem destacá-lo do mundo com um rótulo exclusivo, distinto, abrangente e fiel à imagem da criatura havida. Com isso, obfirmamos a índole determinista que impõe, de batismo, ao recém-nato, haja vistas: "dei desde logo o nome de Alberto Caeiro". Sim, se alguém dá, a dação só pode contemplar aquilo que conhece e que tem (e já vimos o sentido deste conhecer), não é ato involuntário, antes, preconcebido, ideado.

O arcabouço estético-filosófico

Sabemos, havia uma propensão favorável ao greco-paganismo por detrás do advento de Caeiro, como objeto do pluralismo intelectual abrigado por Pessoa. Pois bem, sendo um expatriado em sua própria pátria, em meio aos movimentos atuantes na gênese literária, fossem românticos ou simbolistas, basta-nos dar conta da própria formação pessoal, num ambiente inglês ­ e era a África do Sul de então. Homem dividido entre dois idiomas ­ o inglês e o português, abeberava-se fortemente das fontes inglesas. Fazia observações críticas no inglês e neste idioma escrevia poemas. Curiosamente, sua última frase, no leito de morte, deixada num bilhete no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital São Luís dos Franceses, foi: "I know not what tomorrow will bring".

Dois grandes nomes das letras inglesas, Matthew Arnold e Coleridge, são-lhe inspiração constante e, não bastasse isto, ambos nutrem a mesma simpatia pelo mundo grego.

Salientara Coleridge: "The Greeks idolized the finite, and therefore were the masters of all grace, elegance, proportion, fancy, dignity, majesty... The moderns revere the infinite." Sim, vemos que não são escassos os encômios.

No espólio cultural de Fernando Pessoa, encontrou-se um exemplar de "Essays in Criticism", de Matthew Arnold; neste, havia vários trechos sublinhados e, comenta-se, era propósito de Pessoa fazer uma tradução para o português.

Tal como Arnold descobrira a falta de equilíbrio na arte contemporânea, como neste passo: "But no other poets so well show to the poetry of the present the way it must take... no other poets have made their work so well balanced." E mais: "The calm, the cheerfulness, the desinterested objectivity have disappeared...". Bem assim, de mãos dadas com o crítico vitoriano, Fernando Pessoa aduz: "What distinguishes the artist from the mere amateur says Goethe, is Architectonic in the highest sense." Como dissemos, Pessoa amiúde fazia apontamentos no inglês; este trecho, reproduzimo-lo tal e qual.

Aportamos, acima, no ideal estético com que Pessoa há-de erigir seu neoclassicismo. Ora, por tudo isso, a criação de Caeiro não mais poderia ser protraída.

Para além destes dois gênios, Pessoa buscara conforto em Walter Pater, outro profundo teórico da arte grega, também inglês. Pater não cansa de valorizar a universalidade e o individualismo da arte e do belo gregos. Em sua obra "The Renaissance" (1917). Confrontemos: " "Allgemeinheit' ­ breadth, generality, universality ­ is the word chosen by Winckelmann, and after him by Goethe and many Germans critics, to express that law of the most excellent Greek sculptors, of Pheidias and his pupils, which prompted them constantly to seek the type in the individual, to abstract and express only what is structural and permanent to purge from the individual all that belong only to him, all the accidents, the feelings and actions of the special moment, all that (because in its own nature it endures but for a moment) is apt to look like a frozen thing if one arrest it."

É na capacidade grega de universalizar a arte, extirpando-lhe todas as condicionantes puramente locais, provincianas, que Pater acha a gênese do cosmopolitanismo grego.

Ora, mais profunda e acurada ponderação temo-la no passo seguinte, do mesmo Pater: "For the thoughts of the Greeks about themselves, and their relation to the world generally, were ever in the happiest readiness to be transformed into objects for the senses. In this lies the main distinction between Greek art and the mystical art of the Christian middle age, which is always struggling to express thoughts beyond itself."

A via esotérica de Fernando Pessoa e o impacto na concepção de Alberto Caeiro

Pois bem, faláramos, nalgum ponto atrás, da importância do "primeiro" heterônimo ­ Caeiro. Pessoa, confessadamente imiscuído nos assuntos esotéricos, místicos, não deixaria, de graça, de aproveitar-se de toda simbologia possível para sua criação.

Em sendo, portanto, o primeiro, o número um, onímodo, aquele a quem, desbragadamente, imputava-lhe o condão de mestre, tem a significação simbólica da totalidade a que todas as coisas retornam. É a ideação de Deus, tanto quanto da individualidade, exatamente o que Caeiro representava.

Aventuremos, em conjecturas mais além, nessa jornada simbólica...

Caeiro, por sobre ser tudo o de que já comentamos, era um pastor e sua magna opus "O Guardador de Rebanhos" assim o atesta.

Vejamos, então, mais um pouco. Para várias culturas, o pastor era a manifestação da religiosidade; aquele que conduz as ovelhas, os carneiros, o rebanho. Ora, pois, de carneiro, basta-nos retirar o "r" e o "n" deste substantivo e teremos a transmutação em Caeiro, isto é, um pastor não da carne, mas de toda a simbologia transcendente a ela ­ um pastor de almas... Pois bem, um paradoxo no devir concreto do poeta. Nada mais do que meridiana consagração da angústia da luta entre a religiosidade inata de Pessoa, o ortônimo, e a materialidade grega "fingida" por Caeiro; e mais: na fase inicial do Cristianismo, era tal a configuração de Jesus ­ aquele que carregava o carneiro. Talvez, uma censura velada ao rumo secular a que se dedicara a Igreja.

É certo que, em alguns passos da obra de Caeiro, deparamo-nos com alguma "recaída" de viés anímico, o que não chega a ponto de comprometer a ideologia que lhe imprimira Fernando Pessoa.